20070724

Desceu ao fundo do poço pelas escadas de algodão (amargo) - ou seja - caiu e além disso tinha sérias alucinações. As pequenas almofadas negras que via ao descer não eram mais que restícios da luz que se estinguia a uma velocidade vertiginosa, que espicaçava os olhos a lacrimejarem. caiu e sentiu uma dor atroz - como ninguém pode entender. Quebrou todos os ossos do corpo. até ao mais ínfimo. Os músculos agonizaram contraídos contra o gelo glacial do fundo do poço. Queria gritar, mas a garganta ardia-lhe e mal respirava. Mas se queria que tudo ficasse bem, precisava de chegar ainda mais fundo. A pá que atirara estava intacta. Coxeou até ela, apalpando a parede rugosa na luz escura. Agarrou-a com as duas mãos (as articulações dos dedos estalaram) e começou a escavar.

O que mais odeio num texto é o facto de ele ser tão pessoal. Por mais que tente distanciar-me em pessoa, em género, no verbo: acaba sempre por evaporar uma partícula do meu cheiro. Mas contrário ao físico, só eu o sinto - tão presente e violento que o odeio.

20070723

O que fica no meio (parte 1 de 3)

Ela tinha um não-sei-o-quê que fazia as pessoas se sentirem mal. Eu conheci-a, uma vez, pessoalmente, e posso certificá-lo. Era como se a cara dela, mas toda a sua cara, fosse uma máscara mal planeada, e a sua roupa um vestuário desenquadrado para uma personagem mal construída. Não era que fosse (pelo menos não obviamente) má pessoa. Não tinha falhas de carácter. Na verdade, tinha o que só posso chamar de falhas de existência.
A maneira como andava não era a-normal mas tinha algo de peculiar. No entanto, não era um daqueles actos incomuns que desse vontade de explorar, era mais, uma característica que causava desconforto a quem caminhava ao seu lado. Como se ela não tivesse treinado bem os passos e por isso caminhasse ora rápido de mais, ora lento demais, ora cambaleando ligeiramente como se tivesse bebido.
A sua voz era nem feminina nem rouca. Não era nada atraente, para dizer a verdade. Como os passos, também oscilava entre um agudo que irritava os pêlos interiores do ouvido e o baixo surdo que não se entendia. Comia as palavras de um modo violento e por vezes extraviava o seu significado, pedindo emprestado outros subtilmente. Não sabia muitas coisas se não aquelas que toda a gente da sua idade sabia, e nada nela era em extremo. E se bem que a vida não deve viver de extremos, só assim tal personagem incompleta poderia ser verdadeiramente alguém. Mas tinha um não-sei-o-quê que nos deixava desconfortáveis.
Um dia, ao passar com ela pela montra de uma loja, apercebi-me que o seu reflexo não era exactamente como o meu. Para falar a verdade, não era nem um pouco como o meu - era mais difuso, esbranquiçado, como se uma luz intensa focasse as suas costas e a atravessasse, reflectindo um imenso buraco luminoso no interior dos contornos do seu corpo.
Como primeira particularidade que encontrava nele, não pude deixar de aprofundar a nossa "amizade".

A dúvida é: será que os grilos ficam roucos?

20070717

Nódoa Negra

Se me ardesse um pouco menos a garganta, gritava: estou a apaixonar-me. Mas doi-me, por dentro e por fora, contra-arte em circulos vermelhos no inicio da minha língua. E por isso, apenas murmuro sem som. Sílabas vazias como nós acabamos por ser, enterrados vivos por tantas palavras e pensamentos. Já nem somos a dor em si, a pancada da paixão na pele dorida, não somos a lâmina nem o fogo: somos a nódoa negra que fica e emerge, dia a noite, numa pele fina e fria.Porque estava - estava - a apaixonar-me. E entretanto, com um futuro tão prometedos como era naquele instante.. ficámo-nos apenas pela rouquidão. E pergunto ao outro lado se isso chega: e claro que chega. Chega o corpo, chega a pele, o silêncio da exigência que temos um do outro. Ou chegaria, se um dia, eu não tivesse pensado que me estava a apaixonar.

Um pequeno pássaro rastejou pela fenda das telhas e mordeu-me o lábio. Trazia-me um beijo - mas não era teu. Era uma dúvida queimada, de agulhas afiadas em vez de garras. Trazia-me o prenúncio do Adeus.

20070716

A história da minha vida não adiantava para me conheceres. Nem os sorrisos, nem as lágrimas ao longo do som absurdamente constante das contrações e distenções de células, os vai-vens eléctricos do músculo a que chamam coração. Porque a história, como esta estória, é reescrita e recontextualizada a cada palavra, cada letra, cada sinal. E por isso, não adiantava que te contasse a minha história. Porque mesmo que a narrasse exactamente como me recordo, livre de quaisqueres juízos (o que não faria), a minha recordação por si só já era uma amostra insuficiente e parcial do grande todo que é a minha vida. Com isto não penses que quero valorizá-la - não, pelo contrário - ao mesmo tempo que admito que é tão largamente poderosa reconheço a sua fraqueza: a história da minha vida já passou, e assim como o passado não existe materialmente, deixou apenas abrasões nervosas em mim, impressões acimentadas mas que não são, nem perto, aquilo que eu sou. Porque eu não sou o conjunto das minhas estórias.
Aí levantas a pergunta, que já antecipo na palidez sombria da tua íris: como te conheço. Ergues a sua interrogação bem acima das nossas cabeças, porque afinal, isso é o mais importante. É importante ser honesto, é importante ser transparente, e seguro, e tudo isso porque é importante conheceres com quem falas. Porque não posso ser simplesmente um texto em branco, ou um texto em preto, assim como tu também não - ou a nossa comunicação não seria mais do que (ou seria tanto como) um emaranhado de indefinições tão extensas e confusas como esta quantidade de adjectivos aborrecidos. Fora com as formalidades, tenho de ser alguém, porque se for ninguém a nossa conversa seria, por definição, uma conversa de um louco com o vazio (mesmo que esse vazio, como todos os outros, fosse completamente cheio).
A partir daqui esboço-te simplesmente que sou um exemplar da raça humana. Já sabes o sexo, a idade e as particularidades ínfimas de todos os milímetros do meu corpo (mais coisa menos coisa), mas, como eu sei, não é isso que queres saber. A tua pergunta é mais persistente e fura-me a pele fresca da nuca: quem sou. Nem te sorrio nem choro: não vale a pena. E tu achas, como todos, que eu finjo. Que há um motivo oculto, interior, verdadeiro, para tudo aquilo que eu sou - como se eu fosse o drama, o reflexo interior de uma essência necessitada de manifestação. E eu pergunto-te o que queres saber. Mas tu não queres uma resposta, queres uma manifestação. Queres uma palavra que não seja só palavra, mas união de todas as verdades sensibilizadas transformadas num só instante, que beije os pêlos brancos da tua orelha! Queres o todo que sou gritando em suor, queres o sorriso mais puro nevando nas tuas bochechas. E isso eu não posso ser. Porque o que eu sou, o que toda a gente é, não o é senão para si mesmo. E quanto menos pensamos na origem do que somos exteriormente, mais próxima dela estamos, porque o excesso de tentativas está condenado. Eu não sou mais nada senão tudo aquilo que não sou.
Perguntas-me de novo, extasiado da discussão, numa espécie de suspiro respirado: Quem és?

20070612

Quem me dera dilacerar as palavras para que não fossem sequer lembranças. Quem me dera evitá-las ao centímetro e varrê-las de tudo o que pudesse ser a sombra do fantasma de uma comunicação perceptível. Seria possível, que sem as suas construções monstruosas, sem as imposições antecipadas, eu pudesse simplesmente estar.

20070602

Paz não é monotonia?

Fechou os olhos e inspirou fundo o ar da noite. Num lugar daqueles, o ar tem sempre uma densidade diferente - ou talvez o alcóol já lhe começasse a alterar a percepção. Descendo a colina, atrás das centenas de casa, ainda adivinhava um horizonte marítimo e os reflexos quentes do sol a espelhar na água. Talvez devessem descer a colina e mergulhar... mesmo depois do jantar! Virou-se e espreitou o marido por entre as flores da cortina - sem espanto, verificou que ele já dormia, com um pequeno brilho salivar a escorrer-lhe pelo canto direito da boca entreaberta.
Seria melhor fechar a janela, para não deixar os mosquitos entrar; mas aquela noite de verão estava tão quente e suave que decidiu deixá-la mesmo assim, escancarada. "E que se lixem os vizinhos também" - pensou. Segurou no máximo de garrafas de cerveja que pode, e levou-as com uma certa dificuldade até à cozinha. Acendeu a televisão enquanto lavava a loiça, mas também não dava nada de especial - o telejornal, tragédias, guerras - e lá para o meio, com sorte, uma vitória futebolística.
Tudo parecia demasiado calmo para um sábado. Mas se pensasse bem, talvez à muitos sábados fosse assim. Tinha-se casado à um par de anos - ou talvez à quatro, ou cinco? O tempo é mesmo um estado de espírito. Como levavam os dias, puxando-os num carro de bois, pouco tempo tinham para descansar e festejar o passar dos tempos. Não importava - a vida é assim. E no entanto, uma lasca de saudade percorre o corpo da mulher. Como um choque de nostalgia, a combater toda aquela apatia, procura lembrar-se do momento exacto no tempo em que desistiu de contar os anos.


Joana tinha 20 anos, e como todas as raparigas de vinte anos, queria algo extraordinário para a sua vida. No seu caso, não um emprego extraordinário, nem extraordinárias viagens - mas, simplesmente, uma vida extraordináriamente pacífica.

(Não - diz a mulher - foi antes disso.)

Joana tinha então 15 anos, e como todas as raparigas de quinze anos, queria algo fantástico na sua vida. No seu caso, não era ser fantásticamente popular, nem fantásticamente boa em alguma coisa. Ela só queria um beijo fantástico. "O" beijo. Isto pode parecer fútil a muita gente, mas para Joana, pouco importava. Aliás, não partilhava com ninguém o seu secretíssimo segredo - nunca tinha dado um beijo a ninguém. Não que não tivessem surgido oportunidades, mas porque Joana nunca tinha conhecido o rapaz perfeito no momento perfeito. Pelo menos, era o que lhe parecia. E ela queria que o seu primeiro beijo fosse tão bom, que todos os seus beijos seguintes iam sentir inveja daquele primeiro. Queria lembrar-se dele para o resto da sua vida - porque, afinal, já tinha passado o que lhe parecia muito tempo a pensar naquilo, e não podia ser em vão. Mas Joana foi ficando mais ansiosa, e cada vez mais ansiosa. Com o seu corpo já de mulherzinha, perguntava-se se alguma vez iria poder sucumbir às atenções de algum rapaz - que por aquela altura eram mais que muitas.
Foi então que chegou o verão - outro verão, à muitos anos. Joana, rodeada por alguns rapazinhos, já sentia a sexualidade fazer-lhe cócegas no estômago e as papilas a contrairem-se de cada vez que uma mão masculina lhe tocava. Mas havia mais - não pela primeira vez - Joana apaixonou-se perdidamente por um rapaz - só não sabia se era o perfeito. Consciente das atenções melosas que a rapariguinha lhe dava, o rapaz avançou. Mas ela não sabia se ele era "O" fantástico. Até que um dia, desistiu de esperar e entregou-se aos braços dele, deitando a perder a sua espera. Ou não. Porque aquele beijo, aqule singular e fantástico beijo formigou-lhe a espinha e vibrou-lhe até à ponta dos cabelos pretos. A partir daí, tudo foi fantástico. Davam longos passeios à noite, contemplando as estrelas; e longos passeios de dia, contamplando-se um ao outro, ou a qualquer outra coisa. Pouco importava - porque quando davam as mãos eram um, os corpor vibravam em uníssono. Às escondidas, colados um ao outro, com o corpo coberto de suor, sentia o palpitar forte do seu peito contra o dela, o seu corpo rigído, os seus dedos macios. Era tudo tão fantásticamente intenso, tão perfeitamente fantástico, que durante dias e dias qualquer capacidade de pensameto coerente foi chupada da cabeça de Joana pelos bonitos olhos do seu parceiro. E ela já tinha "O" beijo fantástico. E mais. Tinha "O" namorado fantástico. "A" primeira vez fantástica. Tudo era perfeito e ia continuar assim para sempre! Até que o verão acabou.
Joana não se recordava bem de como tinha terminado a relação dos dois. Lembrava-se de o ver menos, e menos vezes - e de pensar nele menos, e menos tempo. E depois já nunca mais pensava nele. Até ao dia em que se lembrou da sua existência, dos seus longos beijos, dos seus dedos quentes a afastarem-lhe o cabelo da cara e a puxarem-na pela cintura. E só aí chorou, desalmadamente, quando percebeu que o tinha perdido para sempre - mas que ele, tão perfeito, continuaria para sempre com ela. Ele era o seu principe encantado. Era todo "O" fantástico que poderia ter na vida. E já não fazia parte dela.

Foi então que decidiu que não queria mais nada de fantástico na sua vida. Nem beijos fantásticos, nem sexo fantástico, nem palavras fantásticas proferidas a meio da noite. Joana só queria uma existência pacífica. Mas não era assim tão diferente das outras raparigas.
Joana tinha 20 anos, e como todas as raparigas de vinte anos, queria algo extraordinário para a sua vida. No seu caso, não um emprego extraordinário, nem extraordinárias viagens - mas, simplesmente, uma vida extraordináriamente pacífica. Foi então que conheceu Jorge, e Francisco, e Fernando - por esta ordem. E depois casou com Jorge. Não se importava com a sua obcessão pelas arrumações, pelo medo dos estrangeiros que o levava a inúmeras confusões. Não ligava às suas incursões violentas, nem ao desleixo total do marido, ou ao mau hálito. A vida conjugal era pacífica, ele ajudava no que conseguia dado os limites da sua personalidade, lutando sempre com uma timidês crónica e um cérebro não-assim-tão-inteligente. Mas era tudo o que ela poderia pedir - fiel, e à sua maneira puro. Ainda não tinham filhos, mas era um desejo crescente nos dois. O sexo não era assim tão bom. Era normal. E nem por isso Joana era infeliz.


Nem por isso Joana é infeliz. Jorge, smi-acodado, cambaleia até à casa-de-banho. Não é o marido ideal, mas faz tudo o que pode. Joana, sentada no cadeirão, espera que a novela recomece. A vida é mesmo assim. "A vida é mesmo assim" - pensa. Não há sempre coisas extraordinárias e fantásticas para contar, a maior parte das vezes vivemos numa rotina leda e não há nada a fazer. Às vezes, ainda pensa no outro, no seu primeiro beijo. Mas pouco interessa agora - nunca mais o viu, e nem queria. O mundo está no lugar certo. Ao fundo do corredor, Jorge grunhe algo parecido com "Boa Noite".
Nem por isso são infelizes. Naturalmente, têm os seus bons e maus momentos, sendo que os últimos ficam mais tempo na cabeça por uma questão de temperamento. Já não vale é a pena contar os anos que lá vão. Porque não. Porque nem por isso são felizes também.

Estão naquela ténue linha que separa o sonho do pesadelo. Habitam na realidade.

"Também, porque os sapos, apesar de verdes, cheios de rugas, pegajosos e estranhos, duram mais que os principes encantados perfeitos. Como são colossalmente perfeitos, têm muita coisa a fazer no mundo." - pensa, mesmo antes do genérico da novela começar.
A suave melodia espalha-se pela sala. Assim como o ar quente e as memórias de outros tempos.


Paz não é monotonia? - Pergunta-lhe a sua fotografia, de 15 anos, em cima da lareira.

20070531

It's a big, big world

“I don’t want to be depressed any longer. This is the end. For now on, I’m going to smile 16/24 hours, (because I’ll have to sleep to, you know, happy people don’t get insomnias, do they?) I’m going to work hard and study hard all fuckyng books and chapters that I have stored in the attic. And I’m returning to my passed “I don’t think I don’t care” mood, I’ll just live for today but I won’t care about any metaphysic problems that grow up in these stupid books. ‘Cause I have finally identified my problem. I read too much confusing books. And its society, and TV, and parents who try to mislead us saying reading books is a good thing. I’m telling you here, some books are evil. Some books have the power to make you think in things that have the power to make you cry. And I’ve read them, so many of them. And after them, movies inspired by them. And I’ve downloaded pictures inspired by these movies.
Actually life is already too depressing without any of these cultural jewels. My mamma would say – leave the books on the shelves and you head in university – but unfortunately, I haven’t inherited her brains. And as you all know, I quite dislike university. That is just one of my problems. Probably the most important one, at least at long-time terms. But right now, there are some other things to think about. You don’t know me well enough to know them, and some times, neither do I. Because sometimes there are just too many of them wandering in my head and the only solution I can find is to fly away… from me. Weird? Well, maybe I’m weird. Or maybe I just read too many books! Any way, I feel like I’m out of here, like it doesn’t matter if I win or fail, if I pass or flunk, if I live or dye. And It’s definitely easier, but I’ never 100% here, nor 100% there. I’m live-dead or dead-alive, but not any of this things for certain. At this point (if my mother ever read what I write) she would be yearning to an end, with a very impatient look or her face. That’s my mom. She suffered a big-deal in her life so she doesn’t understand how well-raised and well-secured teenagers can suffer. And she’s right. I have everything I could ever want. Maybe that’s part of the problem. I should wand more. As she once said “you must be ambitious if you want to be someone in life” – well I don’t. And I’m not. I’m just waiting… to be killed. By time, by a car, by a disease. Just waiting. And now that I think about it this is quite depressing. And sad. I didn’t mean to be sad, or a victim. I know that I have friends that think that I do. They’re good friends; they just don’t like sad people. They like happy people. Everybody does, really. The more good-intentioned you are, someday you get tired of talking with a person who is 22/24 hours with a bad/depressing humor.
But today, I don’t want to be depressed any more. I want to get up and fight whatever is the obstacle that sands right ahead. I want to be like my mother, and to live like all those persons who I see in school. I don’t want to be sad.” – said the little ant just before someone crushed her.

20070530

Vareja

Era uma vez uma mosca varejeira sã que sabia que era Napoleão. E antes que pensem nisso, não - ela não pertencia no manicómio. Porque apesar do que as medíocres cabeças humanas possam pensar, a mosca varejeira verdadeiramente acreditava que era Napoleão - e a isso chama-se fé, não loucura. Por outro lado, não há estudos que comprovem que as moscas varejeiras têm o que podemos chamar de inteligência, e por isso uma mosca varejeira sã que sabe que é Napoleão não se enquadra em lado nenhum. Continuando. Esta mosca era, como era de esperar, portuguesa - (se não não se chamava varejeira, mas Blowfly Maggot, ou outra coisa qualquer) e planeava desde larva, uma viagem à França, onde acreditava que o seu destino ia ser revelado. No entanto, as moscas só vivem 24horas! E se a manhã a mosca passou a engendrar o seu maravilhoso plano (como sabem, as moscas não são dotadas de uma grande velocidade de pensamento), depois do meio dia já tinha poucas horas para o executar. Voou até ao Aeroporto de Lisboa, e a muito custo poisou dentro da aba de um boné. E aí foi, muito quieta (novamente, algo que toda a gente sabe ser muito dificil para as moscas varejeiras portuguesas). O voo chegou às 19:30, e a mosca sofria de um profundo jet lag. Mas nem isso a fez parar. Levantou voo, meio aos trambulhões, tentou por em prática o seu espírito de liderança com as outras moscas - Venham! Toda a riqueza dos macacos de duas pernas será nossa! Não seremos mais obrigadas a fugir! Conquistaremos a França, e depois a Europa, e depois o Mundo!

Eu sei que vocês não fazem ideia, mas as moscas são extremamente ambiciosas. Assim como nós. Então, mesmo com a barreira da língua, não foi difícil convence-la. Uniram-se em frentes para atacar, primeiro, os líderes. "Porque sem líderes, um povo fica mais perdido!" Entraram pelas janelas - milhares de moscas - e saltaram para cima de Sarkozy caminhando rapidamente com as suas patas peludas - começaram por por ovos nos projectos-lei e obstruir os telefones, emaranharam o cabelo das secretárias... mas rapidamente e vindo do nada o poderoso spray anti-insecto descolou-as de todos os lugares. As moscas, aos milhares, caíram no chão arqueando os corpos e tremelicando as patas. Os olhos brilharam por uma última vez, antes de todas se contraírem e secarem na espuma química.
Só a mosca varejeira conseguiu fugir. Cambaleou, intoxicada, envenenada, até à estátua de napleão. Deixou-se cair no dorso. Talvez, na próxima reencarnação - pensou, antes de morrer também, paralizando-se no sol escaldante.
Talvez na próxima reencarnação - porque para os que pensam
a mente está sempre acima da matéria.

20070526

A minha cabeça dói

Eu preferia que gritasses. E com os polegares marcando-me as costas, que me abanasses o corpo doloroso. Que me dissesses palavras aguçadas, que me cortasses com elas o coração em farrapos.

Não me apetece ver ninguém. Não me apetece mover-me sequer. O breve movimento das minhas mãos sobre o teclado pesa-me nos músculos dos braços e na nuca. Respirar custa, como se nunca o tivesse feito. Não me apetece ver - não quero ver ninguém. Mas quero um abraço. Um abraço quente que me envolva noutra coisa qualquer que não este mundo. Quero sentir a pele de alguém contra a minha, quero um segundo só! Um segundo só de vida por o que parece uma eternidade de farrapos moribundos. Respirar custa. Pensar dói.

Deixaste tertúlias de odor na minha almofada, e ela não me deixa esquecer-te. Mas o sono esquece-te, transformando o teu rosto num emaranhado de manchas cremes. Só me lembro dos teus olhos cruzados de veias vermelhas. Só me lembro do teu carinho [a minha cabeça dói]. Se voltares já... volta! Se voltares eu peço perdão! Mas não voltas, e o perdão não chega, e choras porque eu choro e eu nem sei porquê!

Não posso continuar assim.
Tem de ser.
Será que já chegaste?

(riso)

(silêncio)

As palavras escapam às nossas bocas ou nós escapamos ao entendimento?
O que fica são perguntas em aberto. Sempre perguntas em aberto, porque as respostas multiplicam-se em palavras de costas voltadas.

Se calhar é tudo muito simples, e os meus olhos estão sujos.
Mas só vejo perguntas, e nem percepciono o sentido.

- Chorava balançando-se na janela. E ele dizia (chora, que faz bem à alma). Mas não fazia - faz bem ao corpo. Faz bem à efemeridade, à vociferação do momento, faz bem ao ponto final. E é por isso que ela chora agora. Porque às vezes ela ria, mas não para sempre. Mas ele ria sempre. E ele dizia (rir é a cura para todos os males). Mas não era - pelo menos não o riso dele.

- A culpa era dela. Nunca se deixara passar de um par de ligas vermelhas - daquelas que só se vêm nos filmes, e que só neles capturam o seu sentido. Um par de ligas vermelhas, atraentes, que circundavam a sua normalidade de um ponteado vermelho-escarlate. *Ah, se ela soubesse* E sabia. No fundo sabia que enquanto aceitasse aquele presente, seria como ele: um toque de sexo e um sorriso largo. Não um sorriso, um riso. Um gozo. E assim continuou o tempo, arrastando-a numas ligas pretas com laços vermelho-escarlate.

- E o tempo passa (mesmo sem sermos todos cães vagabundos). Mas nem muda assim tanto. O tecido é o mesmo. E ela vestia outras coisas, mas na sua mente estavam sempre as ligas. O seu fato sóbrio, preto, escurecia-lhe até a pele. Mas ele ria. E ela falava. E ele ria. E ela movia-se - e ele ria novamente. Porque tinha graça. Porque sim. Porque ela o fazia rir, incessantemente, com tudo o que dizia e fazia sem ser... chorar. (Se parares quieta) dizia ele, (se parares eu não me rio mais). Se tivesse parado de falar, se tivesse parado de dizer, de pensar - ele parava de rir. Durante uns tempos chorou - mas ninguém pode chorar para sempre. Durante uns tempos seleccionou todas as palavras que dizia à sua frente. Mas é cansativo, e passado pouco tempo, já não havia palavras. Havia

(silêncio)

e uma data de perguntas a fazer.

- Não posso chorar mais - dizia - e não posso mais ouvir-te rir. Prefiro votar-nos ao silêncio a viver como uma piada ambulante. Porque se tu não vês mais em mim do que um par de risos - e se o vês, só o mostras quando choro - eu não posso ver mais em ti do que um voto de silêncio. Não posso chorar mais - fungava - só isso. E depois chorou.

20070522

Se pudesse procurar o que te faz chorar no Google, mas duvido que encontrasse.

Só sei se me disseres.

História de amor

Era uma vez uma flor carnívora e um dente-de-leão. A flor carnívora era daquelas flores que só era bonita aos olhos de quem a via. E esta em questão, nem por isso era muito colorida. Ninguém sabia quem a tinha magoado - e ninguém perguntava - (porque eram) assuntos pessoais. E a gigantesca flor carnívora, pouco balançava ao vento, mas gemia - naquela língua silenciosa das plantas que pouca gente fala.
Gemia porque no seu interior um bocadinho de tecido tinha sido rasgado, sem ninguém reparar - e à vista de todos. E a flor gemia. E os dias passavam.
As flores não aguentam muito tempo, por si só. E muito menos quando estão rasgadas, porque vão secando e morrendo, ficando amareladas à medida que as horas passam. Depois estaladiças até se partirem com a mais leve brisa de sol. Foi isso que aconteceu à grande flor carnívora. Secou, pouco a pouco, tirando a beleza de todo o jardim com o seu aspecto. Qualquer flor que se aproximasse sentia o cheiro a morte que ela exalava. E mesmo que, por alguma razão, não sentissem aquele presságio fétido, ela própria afastava-as consciente que as suas raízes não aguentariam a disputa de água que implica o contacto mais próximo.
Ora um dia uma erva daninha cresceu atrás da flor carnívora, sem que ela se apercebesse. As ervas daninhas têm esse dom, de crescer depressa e sem serem vistas. De um dia para o outro lá estava. E as suas raízes finas enrodilharam-se na da moribunda, e pingavam água para as suas. A flor carnívora não queria, mas habituou-se. O hábito é um sintoma perturbador - e passado algum tempo até sentiria a diferença se ela se fosse embora. Mais algum tempo sentia falta. Mais tempo e sentia saudade. E quando à noite a erva daninha dormia, a flor carnívora sentia saudade, e ansiava que o sol nascesse para poder ouvir as joaninha a treparem o seu caule e o vento a dançar com as suas flores. Havia dias em que a erva-daninha estava triste, e chorava - e a planta carnívora aprendeu a confortá-la, aprendeu, habituou-se - e até gostava.
A erva daninha também não era perfeita e por vezes deixava escapar leves secreções de hábito, e pensava para consigo - como a flor carnívora era diferente das outras. Primeiro essa diferença atraíu-o a brotar por ali. Mas agora, agora que via as outras no outro canteiro, com as pétalas brancas e vermelhas viradas para o sol, tudo aquilo lhe parecia horrivelmente... aborrecido. Não queria magoar a planta, não tinha nada a ver com isso. Mas quando a primavera brilhou no jardim e a planta carnívora continuou igual, não podia evitar admirá-las! Foi assim que começou, inconscientemente (porque as plantas têm uma consciência muito limitada), a planear soltar-se e voar para o outro lado.
A planta carnívora, muito antes disto, avisada pelas feridas abertas, tentou deslocar as suas raízes. Mas cada posição era mais desconfortável que a outra; a erva daninha não reparava mas tecia comentários que, tendo como intenção trazer-lhe um sorriso às pétalas, eram como pequenas gotas ácidas nos veios doentes da planta carnívora. Porque ela não era tão grande como parecia, e o seu centro já seco doía-lhe como nunca. Lutou para se afastar. E nada. Nem um milímetro se consegua mexer.

Antes que a erva daninha voasse para longe,
a flor carnívora secou e apodreceu no chão.
(Das suas energias nasceram outras, mais bonitas,
e com histórias de amor tão mais legíveis que esta).

E foi melhor assim. Fim

20070521

Vinni my love

Mim estar apaixonada por Vinni Puh de khytruc. Mi gosta muuuito. Pena n haver cm muitas subtitles... o primeiro é tão giro.. mas cá vai o que encontrei, se alguém souber de mais imploro q avisem.. :P

Nunca gostei do outro.

Vinni Puh site!!

Moldura

A maior ambição da "madama" era caber numa moldura perfeita. Mas, apesar da nobreza de carácter, madama era de famílias não muito abastadas, e por isso não teria jamais uma moldura feita à medida.
O primeiro passo foi seleccionar qual das molduras disponíveis no mercado social. Claro que madama já tinha uma singela moldura, com um pequeno limite preto e branco que combinava muito bem com o seu papel - mas ela queria mais. Ela queria uma moldura como aquelas que via passear nas paredes mais altas: aquelas molduras de estilo rococó que reflectiam a luz do sol de dia e emanavam reflexos dourados à noite.
- Ah... quem me dera ter uma moldura tão dourada que até o sol sentisse inveja...! - murmurava madama, à noite.
O pior é que a madama teve poucas oportunidades na vida, e em breve todas as suas amigas já tinham molduras modernas, redondas, mágicas e suspensas. E ela ouvia os seus sorrisinhos arratados, que caiam como pequenas facas no seu ego.

Como ia dizendo, madama seleccionou a moldura que lhe convinha. E passado algum tempo, com muito, muito esforço, subiu mais um bocadinho na parede. Sobre a sua moldura cresceram bolinhas coloridas - e ela era agora uma moldura de estilo moderno. Mas lá em cima, algumas amigas ainda tertuliavam, acusando-a de ter uma moldura popular. E madama batalhou, batalhou, desviou verdades, manipulou... até ter a sua bela moldura rococó. Mas já não lhe era suficiente. Queria duplamente rococó. Triplamente rococó. Subiu na parede até ultrapassar o teto e colar-se às nuvens. Quadruplamente rococó. Já só sobrava um pequeno quadrado de madama, a espreitar da sua monumental moldura. Quintuplamente rococó - as camadas e camadas de ouro talhado começaram a sufocá-la. Mas já tinha perdido tanto e lutado tanto... E se ultrapassasse o céu, e se ultrapassasse as estrelas, os astros, e chegasse ao infinito?!

Mas quando chegou lá em cima, ao absoluto, ao grande vazio... era... um pouco vazio. E.. um pouco sufocante...

Talvez se a moldura fosse maior a vissem...

(e depois... a moldura cobriu-lhe a face, e madama despareceu pa sempre.)

[plágio da monstra]

Ambivalente

Ela tem uma cara simpática. E é simpática. Mas também não o é - e como não é, decididamente, concreta (sem ser o seu corpo curvado), não precisa de ser bivalente. É mórbida, e sádica, e gosta de chocar as pessoas porque está farta que elas a choquem com coisas normais e queridas. Ri-se de boca aberta e chora de cigarro na boca. E sabe o que quer, mas não quer aquilo que sabe que quer. E às vezes fica calada, durante muito tempo... enquanto canta. E ás vezes não.
Pode-se dizer que ela é extremista. Na verdade, ela é muito extremista. Mas não pode evitar sê-lo porque é a única coisa que sabe com certeza que é.
Ela é simpática. Muito simpática. Mas também não o é, um pouco como toda a gente, mas de forma mais exagerada. E não sabe se o é para chocar - só sabe que o choca sendo. E isso ora a alimenta, ora a mata por dentro. Hoje foi um destes - e quase que dos outros.

Conclusão: assim como as expressões não-lógicas são discriminadas na lógica formal, as expressões lógicas não podem ser aplicadas à lógica pessoal sem que se perca metade do seu valor. Porque as pessoas não têm métodos formais lógicos, nem construções formais, pelo contrário - se é que existe um contrário passível de ser verbalizado!

20070520

O poço dos desejos

Yoruyume-san era ainda um jovem rapaz quando encontrou um poço dos desejos atrás da casa da sua avó, no Norte. Agora, para aqueles que nunca viram um poço dos desejos, é certamente difícil imaginarem-no, mas vou tentar descrevê-lo como Yoroyume o viu: de longe, era como um muro em círculo, um muro de pedra creme rugosa, com carácteres romanos escritos em toda a sua volta. Pensar-se-ia que as suas pedras estivessem escuras e gastas como nos filmes, e no entanto eram claras e macias ao toque. De perto, via-se as magníficas pedras preciosas que tinha incrustadas no topo, e as flores raríssimas que cresciam à sua volta, bebendo a sua água mágica. Em cima tinha um pequeno tejadilho verde-escuro, que protegia do sol que (só naquele lugar) batia directamente, já que se abria uma pequena clareira entre os pinheiros selvagens. Do tejadilho pendiam finíssimos tubos de metal que ao balançarem ao vento tirlintavam. O calor abafava naquela tarde de fins de primavera, e o pequeno Yoru sentou-se ao lado do muro, à sombra do tejadilho. As tábuas de madeira estavam desenhadas a fio de ouro, e pequenas moscas-fadas brilhantes saltavam e dançavam entre elas de cabeça para baixo (porque como toda a gente sabe, o mundo das fadas é ao contrário). Encantado com as suas vozes mágicas e com as cores dos seus olhos, o menino começou a escavar no fundo do bolso das calças de ganga, até encontrar cinco escudos mesmo colados a um bocado de rebuçado derretido. Depois de a limpar convenientemente deixando apenas alguns bocadinhos de corante vermelho entre as bordas da moeda, levantou-se e espreitou lá para baixo. O poço era fundo, mas do seu fundo não vinha um ar abafado nem tropical - vinha um fumo, uma aragem fresca com odor a baunilha e a arroz doce - e a canela! Dobrou a língua, fechou os olhos com muita força e pos-se na posição em que se pedem os desejos aos poços dos desejos (de pé coxinho, com a mão direita atrás das costas e a mão esquerda o mais no ar possível). Depois gritou bem alto: "Poço dos desejos, fadas magicas do poço, concedam-me este desejo!" e abriu a mão, largando a moeda que caiu lentamente, como se o ar no poço fosse diferente. Foi então que se lembrou - mas qual desejo?! Oh não... pois sim, o pequeno Yoru esquecera-se do desejo. Girou as rodas dentadas do cérebro o mais rápido possível - queria que o pai voltasse - queria que o desenho que pintara atrás do sofá desaparecesse - queria que todos andassem atrás dele na escola:

- Quero ser feliz! -

toc!

(mesmo a tempo da moeda cair no fundo do poço)

Yoruyume-san não sabia bem porque tinha dito aquilo. Talvez ao pensar nas sardinhas da vizinha...! E as moscas-fadas ficaram de repente com um ar muito chateado e ofendido, a andarem de um lado para o outro tão depressa que até a cabeça lhe doía! Uma delas pairou no centro do poço e estendeu a mão. Parecia querer fazer as pazes, como as professoras obrigavam lá na escola. O que quer que ele tivesse feito para as ofender tanto... assim estaria resolvido. Yoruyume estendeu o braço, esticou-o o mais que pode e empoleirou-se na berma para conseguir lá chegar. Quando o seu dedo indicador tocou na pequena mão da mosca-fada, um sorriso maldoso e disforme emergiu na cara da fada, e os seus olhos tornaram-se pequeninos, pequeninos... Foi então que Yoroyume olhou para baixo e se apercebeu que caía. Mais tarde diria que a queda dentro daquele poço era como mergulhar em espuma de sabão: o as parecia feito de almofadas de penas (ou talvez esse fosse um sonho). Estava a cair, atrás da moeda, no fundo do poço mágico. E caía... caía... tão devagar que não resistiu, e, depois das lágrimas terem voado, adormeceu a fungar encostado a uma lufada de ar.

Tenho medo do escuro e só consigo dormir de manhã. E agora, como é que eu vivo?