20070530

Vareja

Era uma vez uma mosca varejeira sã que sabia que era Napoleão. E antes que pensem nisso, não - ela não pertencia no manicómio. Porque apesar do que as medíocres cabeças humanas possam pensar, a mosca varejeira verdadeiramente acreditava que era Napoleão - e a isso chama-se fé, não loucura. Por outro lado, não há estudos que comprovem que as moscas varejeiras têm o que podemos chamar de inteligência, e por isso uma mosca varejeira sã que sabe que é Napoleão não se enquadra em lado nenhum. Continuando. Esta mosca era, como era de esperar, portuguesa - (se não não se chamava varejeira, mas Blowfly Maggot, ou outra coisa qualquer) e planeava desde larva, uma viagem à França, onde acreditava que o seu destino ia ser revelado. No entanto, as moscas só vivem 24horas! E se a manhã a mosca passou a engendrar o seu maravilhoso plano (como sabem, as moscas não são dotadas de uma grande velocidade de pensamento), depois do meio dia já tinha poucas horas para o executar. Voou até ao Aeroporto de Lisboa, e a muito custo poisou dentro da aba de um boné. E aí foi, muito quieta (novamente, algo que toda a gente sabe ser muito dificil para as moscas varejeiras portuguesas). O voo chegou às 19:30, e a mosca sofria de um profundo jet lag. Mas nem isso a fez parar. Levantou voo, meio aos trambulhões, tentou por em prática o seu espírito de liderança com as outras moscas - Venham! Toda a riqueza dos macacos de duas pernas será nossa! Não seremos mais obrigadas a fugir! Conquistaremos a França, e depois a Europa, e depois o Mundo!

Eu sei que vocês não fazem ideia, mas as moscas são extremamente ambiciosas. Assim como nós. Então, mesmo com a barreira da língua, não foi difícil convence-la. Uniram-se em frentes para atacar, primeiro, os líderes. "Porque sem líderes, um povo fica mais perdido!" Entraram pelas janelas - milhares de moscas - e saltaram para cima de Sarkozy caminhando rapidamente com as suas patas peludas - começaram por por ovos nos projectos-lei e obstruir os telefones, emaranharam o cabelo das secretárias... mas rapidamente e vindo do nada o poderoso spray anti-insecto descolou-as de todos os lugares. As moscas, aos milhares, caíram no chão arqueando os corpos e tremelicando as patas. Os olhos brilharam por uma última vez, antes de todas se contraírem e secarem na espuma química.
Só a mosca varejeira conseguiu fugir. Cambaleou, intoxicada, envenenada, até à estátua de napleão. Deixou-se cair no dorso. Talvez, na próxima reencarnação - pensou, antes de morrer também, paralizando-se no sol escaldante.
Talvez na próxima reencarnação - porque para os que pensam
a mente está sempre acima da matéria.

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