20070809

Nyota balança no escuro o seu pequeno bebé-órfão, e da sua máscara não escorre a mais pequena lágrima. A lua envergonhada não nasceu. E nada brilha esta noite, na savana, a não ser os olhos do recém-nascido.

Foi o espírito do ar que, nove meses antes, pediu o consentimento aos falecidos pais de Nyota. Mais ninguém no mundo lhe dava a mão. E ela deixou-se levar, pela mão, sentindo as pontas das ervas altas a acariciarem-lhe as palmas dos pés, deixando-as dormentes. E pouco a pouco, aquelas cócegas subiram em espiral pelas suas pernas lisas debaixo da saia, acariciaram-lhe o sexo e o ventre e aqueceram-lhe o peito, confortando o bater do seu coração, amaciando-lhe as axilas, o pescoço e as maçãs do rosto. No seu corpo, só os seus cabelos encarapinhados balançavam ligeiramente ao vento, como as copas das árvores frondosas. Os sons da noite vingavam aqui e ali, acordando-a da sua sonolência. Os demónios dos animais estavam despertos mesmo em noites tão escuras, e quando se começou a elevar no ar podia ver os olhos dos predadores a cercarem os pequenos animais que corriam como flechas por entre os arbustos. Subiu cada vez mais alto, elevando-se como uma pluma elevada no ar por um vento forte, sempre de mão dada ao ar. Ultrapassou a espessa camada de escuridão e mergulhou num oceano de estrelas cintilantes. Sentia o calor daqueles astros, estáticos no espaço, na sua pele. E de repente parou também. Sentiu o corpo do seu noivo contra o seu, como se o pudesse ver; fechou os olhos e viu-o realmente: era um homem alto e escuro como o céu da noite, mas os seus olhos derretiam qualquer pedra como se fossem uma chama vermelha. E usava o rosto nú, sem máscara, um rosto inexpressivo e cru. Ele beijou-a, primeiro suavemente, depois contraindo os lábios e sugando-lhe os poros como se quisesse realmente prová-la; empurravam as estrelas à sua volta abrindo espaço como doidos, e as suas pernas enrolaram-se nas dele como serpentes, como as suas línguas, como se tudo fosse assim e para sempre assim. Quando ele a pressionou e penetrou, sentiu o seu espírito estalar e dele saiu um mel quente, explodiu numa amnésia agri-doce.

Nyota acordou na palhota, sozinha com os ruídos da savana a acordar. Lá fora, o som de um tigre talvez. O medo arrepiou-lhe toda a espinha: mas não por causa do grande felino - por causa da lembrança de um homem sem máscara que a elevou nas estrelas do céu. O seu coração batia tão forte que arfava, e o corpo estava coberto com uma fina camada de suor brilhante. A sua máscara, intacta, batia ao ritmo do seu corpo na esteira. Nove meses depois nasceu o bebé. A rapariguinha ainda se casou para mascarar a sua surpresa. Mas também o bebé, como o ar do seu corpo, nasceu nu e incompleto, sem uma única farpa de madeida a proteger-lhe a face.
Os guerreiros viram nele uma ameaça, os anciãos viram nele uma maldição. Nyota foi encarregada de o oferecer aos espíritos, para que se acalmassem.

Balança o seu recém-nascido e olha-o uma única vez antes de o pousar numa improvisada cama de folhas. Vira as costas, prende a respiração, e esquece-o. Porque o povo das máscaras é mais forte que os demónios. E porque tem a sensação que a sua pequena cria mal-formada será criada por uma força bem mais poderosa do que o seu leite. Nem que seja a morte.

Ele desceu do seu oráculo de estrelas na hora marcada para ir buscar o seu bebé. Deu-lhe a mão e elevou-o cuidadosamente pelo ar da noite. A lua veio cumprimentá-lo, iluminando a savana.

O ar chamou-lhe homem.

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